TATUÍ ENFRENTA DUAS PANDEMIAS: GRIPE ESPANHOLA E CORONAVÍRUS

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Em 1918, a pandemia de gripe espanhola mudou o mundo.

Há quase 102 anos, tal qual agora como o coronavírus (Covid-19), a cidade de Tatuí enfrentava a pandemia da gripe espanhola. Esta moléstia, com as mesmas características de uma mutação do vírus Influenza, contaminou o mundo em 1918 e 1919 e contabilizou 50 milhões de mortos. Ela espalhou-se no período da Primeira Guerra Mundial (1914/1918) e os primeiros afetados foram os países que participavam do conflito, com os primeiros casos registrados nos Estados Unidos.

No Brasil, a gripe espanhola chega em setembro de 1918. No dia 10 de novembro daquele ano, o Jornal “Cidade de Tathuy” – coleção do acervo do Jornal Integração – em sua primeira página anuncia a moléstia devastadora. “Está perfeitamente constatado que a gripe espanhola fez invasão em Tatuí, como fez em outras cidades e quase todos os pontos do mundo”. A informação publicada dava noção de incredulidade às consequências da nova pandemia. Assim como acontece com a Covid-19, haviam setores dos governos – como exemplo de hoje, o presidente Jair Bolsonaro – e pessoas que duvidavam da letalidade da gripe espanhola e por razões econômicas.

Na mesma notícia de novembro de 1918, o jornal tatuiano frisa que “temos informações que muitos agricultores estão certos de que na cidade é extrema a desolação. E, como as medidas preventivas, fechamento de centros de diversões, jardins e do comércio, às 19 horas, chegam aos ouvidos com poderosas proporções, é notável o êxodo da população”.  Em seguida, o jornal enfatiza que “é necessário desmistificar a gripe espanhola. Se continuar, teremos o comércio reduzido, porque os lavradores se deixam ficar em casa, amedrontados com tais boatos alarmantes”.

 

Alerta vem da Faculdade de Medicina- Embora o jornal passasse um clima de incredulidade, na mesma edição traz uma notícia pouco alvissareira. O médico Arnaldo Vieira de Carvalho, diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo, mostra que os exames necroscópicos autorizam a supor que a epidemia é de “gripe” e “pneumonia”. E alerta o dr. Arnaldo (hoje nome da avenida em frente ao Hospital das Clínicas): “E por cautela nas hospitalizações dos enfermos, é prudente recolher os pneumônicos, no interesse dos demais doentes”.

Nas edições subsequentes do jornal “Cidade de Tathuy”, os destaques eram para o fim da Primeira Guerra Mundial e a dissolução da Alemanha. Guilherme II renuncia ao posto de chefe supremo do Império Alemão.

 

A gripe espanhola se espalha – Não havia nem clima para comemorar o fim da guerra. Dia 1º de dezembro, a gripe chega definitivamente à Tatuí e requer uma ação das autoridades constituídas, liderada pelo prefeito Laurindo Dias Minhoto. Com um comunicado denominado “Conselhos Úteis”, a comissão alerta: “A “influenza” é uma moléstia que se apresenta em todos os tempos, é contagiosa, mas nunca teve a virulência atual. Cada casa que tem um doente com “influenza” é um foco epidêmico, que ameaça toda a população. O doente que vai para o hospital presta um benefício aos parentes, amigos e conhecidos”. E outras medidas preventivas foram tomadas pela Prefeitura, inclusive  a construção de um hospital para estes doentes.

Dia 29 de dezembro de 1918, o jornal tatuiano publica a descoberta do bacilo da gripe espanhola. O dr. Edington, de Londres, mostra ao mundo que o bacilo é parente próximo da peste bubônica, propagado pelos ratos e pulgas. E, na matéria, o articulista tatuiano faz uma ironia: “E nós, que andávamos a fazer gargarejos com sal e a cheirar cânfora!”.

 

Tatuí não respeita isolamento do carnaval – Em 1919, embora a pandemia ameaçasse a vida de muitas pessoas, o carnaval ocorreu normalmente em Tatuí. Os jornais da época anunciavam as festas carnavalescas nos clubes da cidade e as lojas a venda de lança-perfume Rodo, serpentinas e confetes. Neste ano, nos bailes carnavalescos, a última novidade eram as “Pulseiras Aliadas”. A finalidade deveria ser não perder o par no meio do Festejo de Momo.

Em março, a Prefeitura divulga o primeiro balancete da pandemia da gripe espanhola. O tesoureiro Mário Azevedo mostra que na receita e despesa, houve um superávit. Deste balanço, consta um grande auxílio em dinheiro para o Circo Martinelli se retirar da cidade. Doações particulares eram muitas e as farmácias contribuíram com significativas doações.

 

A gripe faz vítimas em Tatuí e região – Em junho de 1919, a gripe espanhola faz uma vítima em Porto Feliz. Benedita Motta, mulher do Cel. Eugênio Motta, morre de gripe espanhola e aparece no noticiário do jornal de Tatuí. Em Botucatu, em julho, em menos de dois meses, a informação era sobre a morte do coletor federal Francisco Pinheiro da Silva. A pandemia atingiu sua família. Morreram também sua mulher e três filhos.

 

Finalmente, a vacina – Dia 24 de agosto de 1919, nove meses depois da chegada da gripe espanhola no Brasil, vem a primeira boa notícia para o mundo. A descoberta de um antigripal pelo “Instituto Suisse de Sorotherapia e Vacina”. O soro não só servia para evitar a moléstia, como também atacar a infecção declarada, impedindo outras complicações que costumavam sobrevir.

Nesta mesma edição do jornal “Cidade de Tathuy” e outras que circularam semanalmente, começam a aparecer vítimas fatais da gripe espanhola. Até a edição de 7 de setembro, o obituário aumenta e o jornal divulga nomes dos acometidos pela gripe. Eram crianças, jovens e idosos. Tal qual a Covid-19, a gripe espanhola atingia a todos com sua letalidade. O uso de máscaras tornou-se rotina entre as famílias e o distanciamento social era a solução para evitar o contágio.

Dia 18 de janeiro de 1920, quando a pandemia estava sobre controle, a Prefeitura de Tatuí publicou um balanço sobre a gripe espanhola. Está assim descrito: “Em 1918, quando a gripe apareceu, foi montado um hospital especial para combater a pandemia. Passaram por ele 73 infectados, dos quais 66 foram curados e 7 morreram. Felizmente, o estado sanitário agora é lisonjeiro, à exceção de Porangaba. Neste local tem manifestado alguns casos de tifo, devido a má qualidade da água de que lá fazem uso”. (JRF – Informações do Jornal Cidade de Tatuhy. Entre 1918 e 1920, período em que ocorre a pandemia da gripe espanhola, o jornalista João Padilha era o editor do periódico)

 

 

 

 

 

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