JORNAL INTEGRAÇÃO ON-LINE – 9/10/2026 – ARTIGO DO MINISTRO APOSENTADO CELSO DE MELLO (STF)

Postagem 9/10/2026 – 13h30

……………………………………………………………………………

O sentido da frase atribuída a Umberto Eco é o de que o autoritarismo pode apropriar-se do vocabulário das liberdades para conferir aparência legítima a projetos de dominação. 

Palavras como “democracia”, “povo” e “liberdade” perdem sua substância quando utilizadas para justificar a supressão do dissenso, a intimidação dos adversários e a concentração do poder. 

A linguagem da emancipação pode, assim, converter-se em instrumento de submissão.

Essa leitura aproxima-se da reflexão de Eco em seu ensaio “O Fascismo Eterno” , publicado em 1995: o fascismo pode reaparecer sob formas diferentes das históricas, exigindo atenção aos seus sinais, entre eles a hostilidade ao pensamento crítico, o medo da diferença e a pretensão de uma liderança encarnar, exclusivamente, a vontade do povo. 

A advertência exige, contudo, discernimento: a discordância política, por si só, não autoriza a qualificação de alguém como fascista. 

O exame responsável deve considerar práticas, objetivos e relações com o pluralismo. O sinal decisivo de uma vocação autoritária manifesta-se quando se pretende reservar a liberdade aos próprios seguidores, negando aos demais o direito de divergir e de participar, em igualdade, da vida pública.

A liberdade revela sua autenticidade na proteção de quem discorda. Quando o poder exige silêncio, obediência e unanimidade, o nome da liberdade pode continuar nos discursos — mas sua substância já terá sido sacrificada.

CELSO DE MELLO

<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<<< 

Deixe um comentário