JORNAL INTEGRAÇÃO ON-LINE – 17/1/2026 – NA PRAÇA DA MATRIZ EM TATUÍ

Postagem 16/1/2026 – 12h20

UMA RECORDAÇÃO DE SETE ANOS

O Facebook possui uma característica interessante. Quando o internauta menos espera, surge uma recordação para compartilhar.  Esta da foto acima foi há sete anos, na Praça da Matriz, em Tatuí. Presentes, o ministro Celso de Mello, ainda  na ativa no Supremo Tribunal Federal (STF), Francisco Antonio Luciano de Campos (Fran) e José Erasmo Negrão Peixoto. Como dizia Rolando Boldrin, o Zé Erasmo “foi embora antes do combinado”.

O ministro Celso de Mello aposentou-se em 2020, depois de atuar durante 31 anos na Suprema Corte do Brasil. Seu legado ao Direito Brasileiro é extenso e vai perpetuar em suas longas decisões, que hoje balizam o entendimento jurídico do Brasil. Nesta semana, o ministro Alexandre de Moraes, na presidência interina do STF, aplicou o “princípio da insignificância” a um caso de furto, já transitado em julgado.  O réu foi absolvido pelo ministro, por ter furtado uma peça de roupa no valor de R$ 40,00. O primeiro a aplicar esse entendimento jurídico no STF foi o ministro Celso, no caso de um furto de boné. E, em tantas outras decisões, o ministro tatuiano protagoniza a defesa dos direitos civis dos brasileiros, com grande repercussão na opinião pública. Celso sempre teve consciência da inconstância da avaliação popular em suas decisões jurídicas. Muitas vezes, comentou entre amigos, em Tatuí: “Quando uma decisão do STF é do agrado da opinião pública, o autor é elevado aos mais altos patamares de popularidade. Mas, quando a interpretação da lei e da Constituição Federal são contrárias aos anseios dos cidadãos, em um País dividido como está hoje o Brasil, a popularidade despenca”.

O Jornal integração enviou a foto acima ao ministro. Há sete anos, ele não vem à Tatuí, sua terra natal. E esse encontro na Praça da Matriz, registrado pelo editor do Jornal Integração, suscitou uma reflexão do ministro. Leia abaixo:

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“Na Praça da Matriz, em Tatuí, em 2019 — ano que marcou minha última ida à minha querida terra natal —, senti, com uma nitidez quase dolorosa, como o tempo passa sem pedir licença e sem aceitar apelos. Tudo estava ali: o coração da cidade, a praça tão familiar, a igreja, o vai-e-vem discreto das pessoas, o ar de costume que só existe onde a vida já foi profundamente nossa. E, no entanto, eu mesmo já não era o mesmo: havia em mim essa silenciosa consciência de que cada retorno é também uma despedida.

É lamentável — e, de certo modo, triste — reconhecer que o tempo flui de modo inexorável. “Tempus fugit”…  E foge mesmo: escorre entre os dedos, leva consigo as pequenas certezas, muda as paisagens, desloca os afetos, transforma o que era presença em lembrança. 

Tatuí, para mim, não é apenas um lugar no mapa: é uma parte íntima da minha história, um verdadeiro estado de espirito, um abrigo de identidade, uma origem que nunca se apaga. Por isso, a distância pesa mais do que deveria; não é apenas o espaço que separa, mas a vida que avança, impondo suas ausências e seus intervalos.

Fica, então, uma saudade profunda — saudade dos tempos felizes que em Tatuí vivi, de um tempo em que o futuro parecia amplo e distante e o presente parecia durar eterna e despreocupadamente …. Saudade das vozes, das rotinas, dos passos conhecidos, das cenas simples que hoje têm o brilho raro das coisas irrepetíveis. E, embora doa admitir, há momentos em que a memória é o que resta: não como consolo pleno, mas como delicada herança: uma luz mansa e oscilante, frágil como chama exposta ao vento, e, ainda assim, teimosa — porque insiste em permanecer quando tantas outras coisas se apagam. É assim que a memória, às vezes, se apresenta: não devolve o que o tempo levou, não recompõe a presença perdida, não desfaz a distância que a vida impõe; mas acende, dentro de nós, um clarão discreto, suficiente para iluminar — por um instante — o contorno do que foi amado.

Há, nesse brilho vacilante, uma ternura que conforta e, ao mesmo tempo, uma tristeza que fere: conforta, porque preserva o sentido do tempo vivido; fere, porque nos lembra que o passado é uma casa a que já não se retorna mais. As lembranças, quando vêm, trazem consigo o rumor de vozes antigas, o desenho de rostos queridos, a doçura de gestos simples — e trazem também a silenciosa constatação de que tudo isso se tornou, irremediavelmente, ausente!

E é nessa ambiguidade que a saudade se instala: como presença feita de ausência, como companhia que não abraça, mas não se retira. O tempo flui — inexorável — e nós o vemos passar, com uma resignação que custa, com uma aceitação que nunca é inteira. “Tempus fugit”… E, no entanto, apesar de sua pressa impiedosa, algo resiste: essa luz mansa e oscilante, que permanece não para nos enganar com ilusões, mas para nos lembrar, com delicadeza, que houve um tempo feliz — e que, por mais distante que esteja, continua vivo em nós, guardado no lugar quieto onde as coisas verdadeiramente caras não se deixam apagar jamais!

Guardo Tatuí comigo em lugar onde o tempo não alcança nem consegue desfazer — naquele lugar quieto, íntimo, sagrado e fiel em que habitam, de modo perene, as coisas amadas, queridas e inesquecíveis !

E é nesse recanto interior — tão meu quanto verdadeiro — que Tatuí continua viva, inteira, luminosa, como se a saudade, em vez de apenas doer, soubesse também proteger e conservar ! 

Ali, a cidade não é somente lembrança: é presença delicada; é a voz mansa das manhãs antigas, o perfume discreto de um tempo sereno, o calor humano das pessoas que fizeram parte da minha vida e que, mesmo ausentes, permanecem, como permanecem as raízes que sustentam a mais bela e frondosa das árvores. 

Porque há lugares que não se perdem: transformam-se em afeto, convertem-se em identidade, tornam-se quase oração. E, quando a vida impõe distância e o relógio insiste em avançar, é a esse lugar sagrado que eu retorno — não com os passos do corpo, mas com os passos da alma. 

Volto para reencontrar o que me formou, para agradecer o que vivi, para reconhecer, com ternura, que a felicidade, quando foi verdadeira, nunca desaparece por completo: ela se recolhe, silenciosa, para morar eternamente em nossa memória.

Assim, Tatuí permanece comigo como herança e como abrigo: uma fidelidade que não se rompe, um carinho que não se apaga, uma doçura que atravessa os anos. 

E se o tempo, inexorável, leva tantas coisas, ele não tem poder sobre aquilo que foi amado com autenticidade. Pois o que se ama de verdade — o que se ama com gratidão — não termina: permanece! Permanece em nós, para sempre, como uma luz iridescente, tranquila, sustentando o coração e dizendo, baixinho, que certas terras não são apenas onde nascemos — são, para toda a vida, o endereço secreto do nosso coração !!!”

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