Postagem 2/12/2025 – 15h45
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“A DEMOCRACIA NÃO SE FAZ EM SILÊNCIO” (Jamil Chade)
Dia 26 de novembro, o jornalista Jamil Chade foi demitido do UOL, após uma trajetória de seis anos como colunista deste site de informação. O ministro aposentado Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), lamenta essa demissão. Chade, por diversas vezes entrevistou o ministro tatuiano sobre casos mais intrínsecos do rumo da política brasileira, na visão do Direito. Abaixo a íntegra da mensagem do ministro encaminhada ao jornalista:
Meu caro Jamil,
Recebi, com sincera perplexidade e vivo pesar, a notícia de sua saída do UOL.
Lamento profundamente o afastamento de um jornalista que, com rigor intelectual, coragem cívica e aguda sensibilidade humanista, sempre honrou a melhor tradição da imprensa livre no Brasil.
Mas, ao mesmo tempo, senti a necessidade de saudá-lo pela forma altiva, elegante e moralmente superior com que anunciou sua despedida: “a democracia não se faz em silêncio.”
Que frase magnífica, lapidar, perfeita em sua concisão e luminosa em seu alcance. Há, nessas palavras, não apenas um protesto, mas uma síntese ética; não apenas um desabafo, mas uma afirmação de princípios; não apenas um gesto individual, mas um ato de cidadania.
Ao lê-la, recordei-me de John Milton, na sua imortal “Areopagítica” (1644), quando o grande poeta e pensador inglês, insurgindo-se contra a censura e o controle da liberdade de expressão, notadamente pela imprensa, afirmou com desassombro que “dar a um homem a liberdade de saber, falar e discutir livremente de acordo com a consciência, é uma das grandes liberdades que distinguem um povo livre de um escravo.” Milton compreendia — como poucos — que a palavra é o sopro vital da democracia.
Também me veio à memória Thomas Jefferson, que dizia preferir “jornais sem governo a governo sem jornais” (“Se pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria um instante em preferir o último”).
É essa a velha lição liberal, moderna, corajosa e sempre renovada: onde a imprensa é silenciada, a República começa a morrer.
Sua frase, Jamil, ecoa a advertência moral de tantos que jamais admitiram a mordaça como método de poder.
Penso em John Stuart Mill, para quem a liberdade de expressão é condição de toda descoberta da verdade;
Penso em Hannah Arendt, ao afirmar que a política exige “o espaço público da palavra e da ação”;
Penso, ainda, em José Ortega y Gasset, para quem a vida social só se realiza plenamente quando a palavra circula, franqueada e livre, como ponte entre consciências.
“A democracia não se faz em silêncio.” — É esta frase, sua frase, que poderia figurar em epígrafe de ensaio, em discurso parlamentar, em manifesto cívico ou em sentença de tribunal constitucional. Poderia ser entalhada no mármore de nossas instituições, como advertência permanente contra os que temem a luz e preferem as sombras do arbítrio.
Permita-me dizer-lhe, Jamil, com admiração, que essa sua síntese já faz parte da melhor tradição republicana brasileira. É frase que transcende o episódio contingente de sua saída do UOL e que se projeta como alerta ao País. Sem liberdade jornalística, sem imprensa indagadora e questionadora, não há democracia que resista.
Como disse Claude Lefort, pensador da democracia contemporânea: “A essência do regime democrático está na visibilidade do poder.”
E a visibilidade se constrói com voz, com palavra, com pergunta, com insistência, com coragem — atributos que sempre encontrei em seu trabalho.
Ao lamentar o fato ocorrido, registro, porém, minha confiança sincera de que essa partida não será silêncio, mas travessia. O jornalista que escreve como você, que olha o mundo com essa inquietação ética, não se recolhe, não se cala, não se acomoda: continua.
Que essa frase — e a atitude moral que ela traduz — seja o início de uma nova etapa, ainda mais altiva, mais livre e mais necessária ao Brasil.
Receba minha estima, minha admiração e meus votos de que sua voz continue a ecoar — forte, lúcida, crítica e profundamente republicana — por todos os espaços públicos onde a liberdade resiste.
Com apreço e minha sempre cordial saudação, CELSO DE MELLO

